Passar por uma cirurgia é um marco importante em nossas vidas. É uma ponte que precisamos atravessar para alcançar uma saúde melhor. Mas, diferente de outros desafios que enfrentamos, geralmente somos conduzidos passivamente nessa travessia por pessoas que, até pouco tempo atrás, eram estranhas para nós. Acredito, assim como outros profissionais de saúde e pesquisadores, que essa realidade precisa mudar. Precisamos assumir uma postura mais proativa e buscar, com aprendizado e preparação, o melhor resultado das nossas cirurgias.
Embora não compreendamos com detalhes tudo o que ocorre durante um procedimento cirúrgico, temos a certeza de que, por um período de tempo, perderemos o controle sobre nossos corpos. Além disso, sabemos que complicações podem acontecer e que nem sempre o resultado planejado será alcançado. Quando tomamos consciência dessa perda de autonomia e dos riscos, frequentemente somos invadidos por emoções como ansiedade, medo e uma sensação de vulnerabilidade. Uma resposta natural para esse estado de fragilidade é nos tornarmos passivos em relação às ações e decisões que envolvem a cirurgia, atribuindo ao cirurgião a responsabilidade por todo o processo, desde o planejamento até a recuperação. Enquanto aguardamos “pacientemente” o dia da cirurgia, realizamos alguns exames, modificamos certos medicamentos, seguimos as orientações sobre o jejum e, então, simplesmente torcemos pelo melhor. Tratamos a situação como se nosso corpo fosse um carro que estamos levando para uma oficina mecânica para reparos.
Mas e se, em vez dessa postura passiva, encarássemos a cirurgia como se fôssemos correr uma maratona? Afinal, assim como nesse tipo de prova esportiva, passar por uma cirurgia impõe um grande estresse ao nosso corpo, e seria impensável não nos prepararmos para um evento como esse. As evidências científicas mostram que, quando nos tornamos mais engajados, buscando informações, modificando hábitos e preparando o corpo e a mente, podemos reduzir riscos, acelerar a recuperação e aumentar as chances de sucesso da cirurgia. No caso de procedimentos de alto risco, uma boa preparação pode, inclusive, ser a diferença entre a vida e a morte.
O impacto da cirurgia no corpo humano
O tratamento cirúrgico é um dos principais pilares da medicina moderna e, segundo estatísticas de países desenvolvidos, é esperado que ao longo da vida vamos ser operados em média 6 a 7 vezes. Mesmo quando tudo transcorre conforme o planejado, algum grau de dor e inflamação ocorre após a cirurgia. Isso se deve à própria natureza desse tratamento, que requer o rompimento de barreiras naturais do corpo e a manipulação de estruturas como músculos, vasos e órgãos. O chamado “trauma cirúrgico” engloba todas as lesões e efeitos adversos causados pela cirurgia e anestesia. É o preço que pagamos para termos nosso problema de saúde tratado e, idealmente, resolvido.
O trauma cirúrgico resulta na perda de capacidade de realizarmos atividades do nosso dia a dia. Podemos não conseguir nos alimentar, caminhar ou mesmo ir ao banheiro como normalmente fazemos. Isso é chamado de perda de capacidade funcional. Na maioria dos casos, esse é um efeito passageiro, e aos poucos retornamos ao nosso estado normal. Entretanto, se a condição física antes da cirurgia for precária ou se a magnitude do procedimento for elevada, a perda funcional será intensa e a recuperação desafiadora. Em alguns casos, a capacidade funcional anterior à cirurgia pode nunca ser plenamente recuperada.
O que a ciência diz sobre a preparação pré-operatória?
Seria impensável correr uma maratona sem um período adequado de treinamento. No entanto, quando se trata de cirurgia, raramente aplicamos esse mesmo raciocínio. Isso faz sentido? A resposta é não. Cada vez mais, a ciência comprova que a preparação pré-operatória pode fazer toda a diferença no desfecho do paciente. Diversos estudos demonstram que pacientes que se preparam para a cirurgia de forma estruturada apresentam menos complicações, menor tempo de internação e uma recuperação mais rápida e eficiente.
A proposta da preparação pré-operatória é aumentar ao máximo a capacidade funcional antes do dia da cirurgia, tornando o impacto do trauma cirúrgico menos profundo, o que reduz o risco de complicações e torna a recuperação mais simples e rápida. Diferentes protocolos de preparação pré-operatória já foram descritos, todos baseados em uma abordagem multifatorial que inclui aspectos como:
- Programa de exercícios físicos;
- Ajuste e suplementação nutricional;
- Manejo do sono e estado emocional;
- Medidas para interromper o uso de cigarro e o consumo de álcool;
- Controle de doenças concomitantes.
Apesar de recente, o conceito de preparação pré-operatória, felizmente, está ganhando força. Já existem ações organizadas por grandes instituições médicas, como o Strong for Surgery do American College of Surgeons (Colégio Americano de Cirurgiões) e o kit de cuidados pré-operatórios da American Academy of Orthopaedic Surgeons (Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos), que orientam abordagens baseadas em evidências para a otimização do paciente antes da cirurgia.

Nos próximos artigos, vou apresentar particularidades sobre diferentes tipos de cirurgias e discutirei estratégias baseadas em evidências científicas para melhorar os resultados desses tratamentos. Vou explorar como a nutrição adequada, a prática de exercícios físicos específicos, o controle de doenças, a qualidade do sono e a interrupção de hábitos prejudiciais, podem influenciar diretamente no sucesso de uma cirurgia. Meu objetivo é fornecer um guia claro e acessível para que cada paciente possa se preparar da melhor forma possível, reduzindo riscos, acelerando a recuperação e garantindo um retorno mais rápido e seguro às suas atividades diárias.
Se você vai passar por uma cirurgia em breve, lembre-se: a preparação faz toda a diferença. Assim como um corredor não larga para uma maratona sem treinamento, um paciente cirúrgico deve se preparar para enfrentar esse desafio no melhor estado físico e mental possível.

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